O Ministro da Fazenda, Guido Mântega, é uma figura curiosa. É um homem gentil, sério, trabalhador e de um otimismo admirável. Olhando para o conjunto do Ministério de Dilma Roussef e, ainda mais, para o conjunto das lideranças do PT, parece um peixe fora d’água. Nada tem a ver com as estripulias dos seus pares, mas fica agarrado ao posto, não se sabe por que razão.
O ministro, nos últimos dias, afirmou que em 2012 a economia ( o PIB ) vai crescer 5%, aliás o mesmo que vaticinou no começo de 2011 para esse ano. Em razão dessa previsão, na qual ninguém acredita, leitores de jornais têm publicado cartas e uma delas se refere a ele lembrando uma figura da literatura, Poliana, uma menina que construía fantasias otimistas.
Fez-me recordar que usei da mesma comparação em uma ocasião, na Câmara Federal, quando Mântega assumiu o Ministério do Planejamento no governo Lula e veio à Comissão de Orçamento da Câmara, da qual eu fazia parte quando deputado federal, para defender o projeto de lei orçamentária do ano seguinte. Quando ele terminou a sua exposição eu intervi e disse que ele me lembrava a Poliana da obra da escritora americana Eleanor H. Porter que, em 1913, criou a personagem de uma menina que fazia o “jogo do contente”, isto é, procurava encontrar, em qualquer situação, ainda que muito difícil, uma razão para ficar contente. E a exposição do ministro a mim pareceu exatamente isso: um quadro difícil no qual ele encontrava razões para um exagerado otimismo.
Claro, foi uma brincadeira, eu não tive nenhuma intenção de ofender, mas a lembrança de Poliana tinha vindo à minha memória. Não sei se ele entendeu assim, ou seja, recebeu como brincadeira, mas no Parlamento usam-se meios que, no fundo, servem para embaraçar o contendor.
Mas o ministro Mântega é uma boa alma. Tão boa que me faz lembrar outra obra da literatura: “A boa alma de Setzuan”, cujo autor é Bertold Brecht. Trata-se da mudança da personalidade de uma mulher, caracterizada por sua bondade e, por isso mesmo, ela passa a ser explorada no pior sentido. Diante do quadro triste em que se encontra resolve criar um alter-ego, frio e calculista, que lhe permite sobreviver no mundo de ganância e miséria, o que a torna, ao mesmo tempo, vítima e carrasco.
Claro que há elementos de personalidade no ministro que me fizeram lembrar os dois personagens da literatura. Não quero com isso dizer que é possível igualá-los ao ministro. Apenas quero voltar a frisar características suas: boas intenções e otimismo exagerado.
Mas vamos dar um desconto: se ele não mostrar otimismo, quem o fará?
Embora eu concorde em parte com a referida análise do ministro Mântega, gostaria de contrapor com a seguinte tese: o ministro embora conheça a ciência da economia se abstém de focá-la de modo apropriado, em outras palavras, não percebo nele a postura que vi em Pedro Malan, esse era mais alinhado com a ciência da economia do que o ministro em questão. O que sinto nas atitudes do ministro ao longo desses últimos anos é um jogo de acomodação politica, onde os números saltam de modo a mascarar a realidade. Muitos dirão que o jogo politico tem desses vieses, porém o que os políticos teimam em ver é o crescente avolumar do fosso que dia a dia os separa mais da população. Quando uma autoridade do porte de Guido Mântega vai a publico delinear uma visão ou mesmo fazer prognósticos, cabe-lhe a responsabilidade de fazê-lo dentro da mais absoluta tecnicidade, sempre amparado por estudos e principalmente dentro do limite do palpável, outrossim, veremos uma nação inteira entregue a toda sorte de crenças e descrenças. A crise que hoje afeta o mundo baterá, se é que já não tenha batido às portas do Brasil, por isso é preciso traçar caminhos, projetos e estruturas de modo a enfrentarmos isso com a devida serenidade e não será com esse atabalhoado jogo de números, tirados sabe-se lá de que cartola, que conseguiremos os resultados desejados.
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